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AS PRISÕES INVISÍVEIS DA MENTE CAPÍTULO 2 A PRISÃO DA APROVAÇÃO

  • Foto do escritor: André Cally
    André Cally
  • há 3 horas
  • 4 min de leitura

Quando viver para agradar os outros significa abandonar a si mesmo.

Por André Cally

"A necessidade de ser aceito pode ser tão poderosa que, pouco a pouco, você deixa de viver a sua própria história para interpretar o roteiro que imagina que os outros esperam de você."

Existe uma pergunta que faço com frequência às pessoas que chegam até mim:

"Se ninguém fosse julgá-lo, você faria as mesmas escolhas que faz hoje?"

Quase sempre a resposta demora.

Não porque a pergunta seja difícil.

Mas porque ela toca em uma das prisões mais silenciosas da mente humana: a necessidade de aprovação.

Vivemos em uma época em que nunca foi tão fácil receber aplausos e, paradoxalmente, nunca foi tão comum sentir-se insuficiente.

Curtidas, comentários, elogios e reconhecimento têm seu valor. O problema começa quando deixamos de apreciá-los e passamos a depender deles para definir quem somos.

A aprovação deixa de ser consequência.

Transforma-se em necessidade.

E toda necessidade exagerada tem o poder de aprisionar.


O primeiro aplauso

Ninguém nasce precisando provar seu valor.

Um bebê não sorri para ser admirado.

Ele sorri porque existe.

Mas, à medida que crescemos, começamos a perceber que alguns comportamentos são recompensados e outros são rejeitados.

"Seja bonzinho."

"Não chore."

"Comporte-se."

"Não decepcione."

Essas frases parecem simples.

Entretanto, quando repetidas sem espaço para acolher emoções e singularidades, podem ensinar uma lição perigosa: "Para ser amado, preciso corresponder às expectativas dos outros."

Não é difícil entender por que tantas pessoas chegam à vida adulta sentindo culpa ao dizer "não", medo de decepcionar ou necessidade constante de agradar.

A pergunta deixa de ser:

"O que faz sentido para mim?"

E passa a ser:

"O que esperam de mim?"


Freud e a busca por aceitação

Sigmund Freud observou que parte importante da nossa vida psíquica acontece fora da consciência. Ao longo do desenvolvimento, internalizamos normas, expectativas e proibições. Em muitos casos, essas exigências continuam influenciando nossas escolhas mesmo quando já não fazem sentido para a realidade atual.

Assim, uma pessoa pode dizer que escolheu livremente determinada profissão, relacionamento ou estilo de vida, quando, na verdade, ainda responde a antigas necessidades de reconhecimento ou medo de desapontar aqueles que foram importantes em sua história.

Nem sempre percebemos isso.

Mas sentimos.

Sentimos quando dizemos "sim" querendo dizer "não".

Quando sorrimos querendo chorar.

Quando permanecemos onde já não existe vida apenas para não frustrar alguém.


Jung e a prisão da Persona

Carl Gustav Jung chamou de Persona a máscara que utilizamos para nos relacionarmos com o mundo.

Ela não é um inimigo.

Todos precisamos dela.

O médico veste sua Persona profissional.

O professor faz o mesmo.

O pai, a mãe, o líder, o palestrante.

Esses papéis são necessários para a convivência social.

O problema surge quando esquecemos que são papéis.

A sociedade moderna recompensa a aparência.

Parece mais importante parecer bem do que realmente estar bem.

E, quanto maior a distância entre quem mostramos e quem somos, maior tende a ser o sofrimento.

A Persona passa a consumir toda a energia psíquica.

Enquanto isso, a verdadeira identidade permanece escondida.


Milton Erickson e a liberdade de mudar

Milton Erickson observava algo extraordinário em seus pacientes: muitas vezes, as pessoas chegavam acreditando que estavam presas, quando, na verdade, estavam presas principalmente à forma como interpretavam a própria história.

Sem negar a dor, Erickson mostrava que o ser humano possui recursos internos que frequentemente não percebe.

Mudanças importantes podem começar com pequenas experiências, novas perguntas e maneiras diferentes de olhar para si mesmo.

Nem sempre precisamos encontrar uma resposta imediata.

Às vezes, precisamos apenas abandonar a pergunta errada.

Talvez a questão nunca tenha sido:

"Como faço para agradar todo mundo?"

Talvez seja:

"Como posso viver de forma mais coerente com aquilo que realmente sou?"


O preço invisível da aprovação

A necessidade constante de agradar cobra um preço alto.

Ela rouba espontaneidade.

Rouba autenticidade.

Rouba criatividade.

Rouba relacionamentos verdadeiros.

Porque quem vive interpretando um personagem corre o risco de ser amado pela máscara... e nunca conhecido de verdade.

Há pessoas cercadas de elogios que se sentem profundamente solitárias.

Não porque lhes falte companhia.

Mas porque ninguém conhece quem elas realmente são.


A coragem de decepcionar

Talvez uma das maiores demonstrações de maturidade emocional seja aceitar que não é possível agradar a todos.

Sempre haverá alguém que discordará das suas escolhas.

Que criticará seus projetos.

Que interpretará mal suas intenções.

E tudo bem.

A verdadeira liberdade não nasce quando todos aprovam você.

Ela nasce quando você deixa de depender dessa aprovação para existir.


Um convite

Antes de fechar este artigo, permita-me fazer uma pergunta.

Se hoje ninguém pudesse julgá-lo...

Você continuaria vivendo exatamente da mesma maneira?

Não responda depressa.

Algumas perguntas não existem para serem respondidas imediatamente.

Existem para transformar quem teve coragem de fazê-las.

Na próxima semana, continuaremos nossa jornada em As Prisões Invisíveis da Mente, explorando uma prisão ainda mais silenciosa: a necessidade de controle. Descobriremos por que tantas pessoas tentam controlar tudo ao seu redor e como esse esforço pode esconder medos profundos que nem sempre são reconhecidos.

Porque a verdadeira liberdade começa quando deixamos de lutar para controlar tudo... e começamos a compreender aquilo que acontece dentro de nós.

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