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O Maestro da Periferia

  • Foto do escritor: André Cally
    André Cally
  • 1 de mar.
  • 6 min de leitura

Atualizado: 12 de mar.

Um tributo a Wagner Antônio Calmon Ferreira

Por André Cally



A história e o legado do Professor Wagner Antonio Calmon Ferreira


Na história da educação pública do ABC Paulista, alguns nomes ultrapassam o papel de professores e se tornam referências culturais. Um deles é o de Wagner Antônio Calmon Ferreira — educador, poeta, escritor, articulador cultural e maestro de um dos corais escolares mais marcantes da região.

Ele não foi apenas um professor de português. Foi um construtor de identidade para gerações de alunos que encontraram, na escola pública, não apenas conteúdo, mas direção.


Raízes e trajetória

Nascido em 7 de janeiro de 1939, em Nova Granada (SP), Wagner Calmon construiu sua trajetória intelectual com profundidade rara. Radicado em Santo André, tornou-se figura ativa no cenário cultural da cidade.

Formado em Letras, dedicou-se à educação pública e lecionou por anos na rede estadual e municipal, sendo lembrado com especial carinho pelos alunos da Escola Municipal Professor Domingos Rubino, na Zona Leste de São Paulo.

Mas sua atuação não se restringia à sala de aula.

Calmon participou do movimento cultural de Santo André, colaborou com suplementos literários e publicou livros voltados tanto ao público adulto quanto infantil. Entre suas obras estão:

  • História de bichos para pequenos leitores

  • Pensando poesia

  • Pipoca pipocadinhas (com poemas e desenhos)

Era também colaborador de jornais da região, escrevendo crônicas e reflexões que misturavam erudição, ironia fina e sensibilidade social.

Em um de seus textos, definia-se como um “enigma” — alguém movido pela curiosidade, pela palavra e pela inquietação intelectual.


O professor em sala: rigor e presença

Em aula, Wagner Calmon era intensidade.

Pouco utilizava a lousa. Sua ferramenta principal era a voz — firme, impostada, segura. Dava ditados longos, exigia atenção plena e disciplina absoluta.

Era conhecido por uma palavra que interrompia qualquer ruído:

— “MONSTRO!”

A expressão, mais teatral do que agressiva, organizava o ambiente em segundos. Ele dominava o espaço com autoridade natural.

Ali, os alunos aprendiam algo além da gramática: aprendiam que respeito é estrutura de crescimento.

O rigor não era opressor — era formador.


O maestro que dava voz

Se durante as aulas ele era o professor exigente, no período contrário revelava outra face: a do maestro.

O coral da escola não era uma atividade periférica. Era um projeto cultural estruturado, ensaiado com disciplina e dedicação voluntária. Ele regia, tocava violão, organizava repertórios e preparava apresentações.

O repertório era diverso:

  • Canções populares brasileiras, como as de Toquinho

  • Clássicos como Trem das Onze

  • Músicas natalinas

  • E o marcante Oh Happy Day, que se tornou símbolo para muitos alunos

O coral se apresentava em eventos escolares, encontros culturais e chegou a cantar nos estúdios da TV Gazeta, experiência transformadora para jovens que raramente saíam dos limites da periferia.

Para muitos, foi a primeira vez em um estúdio de televisão.

Para alguns, foi o primeiro contato com a sensação de pertencimento ao mundo.


O intelectual e o homem público

Além da escola, Wagner Calmon teve participação ativa na vida cultural de Santo André. Era presença constante em lançamentos literários, eventos educacionais e discussões sobre política cultural.

Escrevia com profundidade, misturando referências clássicas e observações do cotidiano. Defendia a leitura como ferramenta de liberdade.

Sua produção literária dialogava com infância, poesia e formação crítica.

Era, ao mesmo tempo, professor popular

e intelectual sofisticado.

Essa combinação o tornava único.


O maestro que rege futuros

Grandes educadores ensinam conteúdos. Educadores raros constroem identidade.

Wagner Calmon fez isso por meio da palavra e da música.

Na sala, ensinava sintaxe. No coral, ensinava harmonia humana. Na vida, ensinava dignidade.

Seu legado ecoa como um coral que nunca se dissolve completamente. Cada aluno que hoje lidera, ensina, comunica ou inspira carrega um pouco daquela regência.

Porque, no fim, o verdadeiro maestro não conduz apenas vozes.

Ele conduz destinos.


O Professor Que Me Deu Voz


Algumas pessoas passam pela nossa vida. Outras revelam quem nós somos.

Eu cresci na periferia da zona leste de São Paulo. Minha infância foi marcada por desafios, limitações e muitas incertezas. Mas dentro da Escola Municipal Professor Domingos Rubino, algo extraordinário aconteceu.

Foi ali que conheci o professor Wagner Antônio Calmon Ferreira.

Na época, ele era meu professor de português.

Mas ele era muito mais do que isso.

Ele era maestro. Era escritor. Era poeta. Era um homem de cultura. E, acima de tudo, era alguém que via talento onde muitos viam apenas alunos.


O Professor em Sala de Aula

Dentro da sala, o professor Wagner tinha um estilo muito próprio.

Ele ditava quase tudo. Raramente escrevia na lousa. A aula seguia no ritmo da voz dele, e nós copiávamos atentos, tentando não perder nenhuma palavra.

Ele corrigia com precisão.

E, se alguém começasse a fazer bagunça, ele interrompia no meio do ditado e soltava, bem alto:

— Monstro!

Era imediato.

A sala inteira silenciava.Todo mundo voltava a prestar atenção.

Era o jeito dele impor presença. Não havia maldade. Havia autoridade. Havia personalidade.

Ele conseguia reorganizar uma sala inteira com uma única palavra.

E o mais interessante é que aquele mesmo homem firme, que fazia a classe inteira se alinhar com um “Monstro!” bem projetado, era o maestro sensível que, no período contrário, regia vozes com delicadeza.

Firmeza e sensibilidade no mesmo homem.


O Coral Que Nos Ensinou a Voar

O coral da escola não era apenas uma atividade extracurricular.

Era pertencimento. Era identidade. Era palco.

Ensaiávamos para festas juninas, feiras culturais, formaturas, apresentações em outras escolas, casas de repouso de idosos e eventos comunitários.

O professor Wagner ensaiava voluntariamente. Tocava violão. Regia cada entrada. Ajustava respiração, postura, tempo.

Ele não fazia aquilo por obrigação.

Fazia por propósito.

E o repertório era rico.

Cantávamos “Do-Re-Mi”, aprendendo música quase como uma brincadeira estruturada.

Cantávamos “O Caderno” e muitas composições do Toquinho”, como “Aquarela”.

Cantávamos “Andança”, “Aquarela do Brasil”, “Trem das Onze”, “Adeste Fideles”.

E, claro, “Oh Happy Day”.

Foi ali que conhecemos a música brasileira.

Foi ali que aprendemos a ouvir o outro para cantar junto.

Foi ali que aprendemos que harmonia não é só som — é convivência.


O Dia em Que Fomos Para a TV

Um dos momentos mais marcantes da minha infância foi quando o coral foi cantar na TV Gazeta, no encerramento do Jornal da TV Gazeta.

Para um menino da periferia, aquilo parecia impossível.

Estar num estúdio. Cantar para tantas pessoas. Sentir que a nossa voz podia atravessar os muros da escola.

Ali, algo dentro de mim começou a acreditar que eu poderia ir além das circunstâncias.


“O Solo é Seu”

Eu já havia feito um solo de “Noite Feliz”.

Mas veio o ensaio de “Oh Happy Day”.

E havia um solo.

Eu jamais imaginei que ele escolheria a mim.

No meio do ensaio, ele disse, com naturalidade:

— Não. Quem vai fazer o solo é você.

Para ele, talvez fosse apenas uma decisão musical.

Para mim, foi uma autorização de identidade.

Foi alguém dizendo:

“Eu vejo você.”“Você pode.”“Vai.”

Cada vez que eu cantava aquele solo, eu não estava apenas cantando.

Eu estava descobrindo que eu tinha voz.


O Homem Que Eu Só Fui Entender Depois

Anos mais tarde, compreendi a dimensão daquele educador.

Wagner Antonio Calmon Ferreira nasceu em 7 de janeiro de 1939, em Nova Granada, e faleceu em 25 de julho de 2010, em Santo André.

Sua trajetória foi registrada no jornal Diário do Grande ABC, em texto do jornalista Ademir Medici.

Ele foi educador da rede estadual, escritor, poeta, participante ativo do movimento cultural de Santo André.

Em um texto sobre si mesmo, escreveu:

“Eu sou um enigma.”

Talvez fosse mesmo.

Um intelectual profundo que encontrava tempo para ensaiar crianças da periferia.

Ele não estava apenas regendo músicas.

Ele estava regendo futuros.


Um Professor Inesquecível

Ao rever comentários de ex-alunos, percebi algo poderoso.

Ele marcou gerações.

Alguns lembram da firmeza. Outros da sensibilidade. Todos lembram.

Existem professores que passam pela escola.

E existem professores que atravessam a vida.

Ele atravessou.


O Impacto Que Um Educador Pode Ter

Hoje, como palestrante e mentor de desenvolvimento humano, eu entendo algo essencial:

Um adulto que acredita em você pode mudar o seu destino.

Quando ele me deu aquele solo, ele não estava apenas escolhendo uma voz para uma música.

Ele estava fortalecendo uma identidade.

Existe uma linha invisível entre:

O menino que cantou no coral. O adolescente que fez o solo. E o homem que hoje sobe aos palcos para dar voz a outras pessoas.

Talvez tudo tenha começado ali.


Professor, Obrigado

Professor Wagner,

Talvez o senhor nunca tenha imaginado o tamanho do impacto que teve.

Talvez para alguns fosse apenas um coral.

Mas para mim, foi o primeiro palco. Foi o primeiro reconhecimento. Foi a primeira vez que alguém identificou um talento em mim.

O senhor me deu voz.

E hoje, cada vez que eu subo em um palco, há um pouco daquele coral comigo.

A arte salva. A educação transforma. E um professor pode mudar destinos.

O senhor mudou o meu.


Obrigado.

— André Cally

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