A METÁFORA DA CASA QUE SEMPRE ERA RECONSTRUÍDA, MAS NUNCA PERTENCIA AO MORADOR
- André Cally
- 28 de dez. de 2025
- 2 min de leitura
(Psicanálise aplicada – André Cally)

Minha história nessa empresa se assemelha à de um homem convidado repetidas vezes a morar em uma casa que ele mesmo ajudou a erguer.
Toda vez que entrava, recebia as chaves, organizava os cômodos, fortalecia as paredes e fazia a casa prosperar. Plantava jardins, construía pontes com os vizinhos e transformava aquele espaço em um lugar vivo, produtivo e respeitado.
Mas havia uma regra silenciosa: a casa nunca seria realmente dele.
Três vezes fui convidado a voltar. Três vezes reconstruí do zero. E, em todas elas, quando a casa finalmente estava sólida, confortável e valorizada, eu era retirado sem aviso — obrigado a sair apenas com o corpo, deixando para trás tudo aquilo que havia construído com o tempo, o afeto e o trabalho.
Na linguagem da psicanálise, essa casa representa o lugar simbólico do reconhecimento. E o que se repetia não era o acaso, mas um padrão de relação.
A empresa ocupava o lugar de uma figura que deseja o resultado, mas não tolera a autonomia de quem o produz. Aceita o esforço, mas rejeita o vínculo. Valoriza a entrega, mas nega a continuidade.
As comissões pagas “por fora” funcionavam como recompensas clandestinas: um afeto sem nome, um reconhecimento que não pode ser oficializado. Na psique organizacional, isso equivale a dizer: “Você é importante, mas não o suficiente para ter direitos.”
Quando, finalmente, minha presença passou a ameaçar o controle — quando meu nome, meus clientes e minha credibilidade ganharam peso próprio — iniciou-se o movimento clássico da exclusão.
Primeiro, retiram-se as chaves.Depois, silenciam-se os corredores.Em seguida, desloca-se o morador para um canto da casa, como se ele fosse um estranho dentro do próprio espaço que construiu.
O episódio da senha entregue em confiança simboliza o ponto máximo dessa dinâmica: quando a boa-fé é usada como instrumento de desapropriação. Ao ceder o acesso, perdi não apenas clientes, mas o lugar simbólico de pertencimento.
Na clínica, chamamos isso de violência relacional sutil: não há gritos, mas há apagamento. Não há confronto direto, mas há retirada de identidade.
A perda do grande negócio não foi apenas financeira. Foi psíquica. Foi a confirmação de que o trabalho já não me pertencia — embora tivesse nascido de mim.
Essa história não fala apenas de uma empresa.Ela fala de um ciclo que se repete quando alguém entrega demais a lugares que não sustentam reciprocidade.
A saída, nesse caso, não é vingança nem rancor.É elaboração.
Elaborar é compreender que algumas casas precisam ser deixadas — não porque falhamos, mas porque crescemos demais para caber nelas.
E quando a consciência amadurece, o sujeito deixa de reconstruir casas alheias…e passa, finalmente, a construir o próprio território.









Comentários