Despertar ou Fuga? Uma leitura psicanalítica da espiritualidade contemporânea
- André Cally
- 20 de jan.
- 2 min de leitura
Por André Cally
Vivemos um tempo em que a espiritualidade voltou ao centro do discurso humano. Fala-se de energia, despertar, consciência, Kundalini. Há sede de sentido — e isso é legítimo.
Mas, do ponto de vista psicanalítico, é preciso fazer uma distinção fundamental: nem todo movimento espiritual é maturidade psíquica. Alguns são apenas defesas sofisticadas contra a dor.

O Despertar Autêntico: A Aproximação do Real
O despertar autêntico não afasta o sujeito do sofrimento humano — ao contrário, ele o aproxima. Quando algo verdadeiramente desperta, o indivíduo passa a sentir mais, não menos.
A angústia não desaparece; ela ganha nome.
A dor não é negada; ela é simbolizada.
O ego não se dissolve em fantasias de iluminação; ele se fortalece para sustentar o real.
A visão psicanalítica da "Kundalini": Pode ser compreendida como a emergência de conteúdos profundos do inconsciente (afetos recalcados, memórias corporais, desejos não reconhecidos). Não é apenas mística; é uma intensificação da vida psíquica que exige continente e linguagem.
A Fuga Espiritual: A Dissociação como Defesa
Já a fuga espiritual opera de modo oposto. Ela utiliza conceitos elevados para evitar o contato com feridas primitivas. É uma racionalização espiritualizada que protege o ego de sua própria fragilidade.
O Afeto Real | A "Máscara" Espiritual |
Dor | "Apenas uma ilusão" |
Raiva | "Baixa vibração" |
Trauma | "Escolha da alma" |
Nesse cenário, o discurso se ilumina enquanto o afeto permanece congelado. Não há trabalho de luto ou elaboração da sombra, apenas uma tentativa de escapar do humano.
O Critério Clínico
Como diferenciar integração de defesa? A pergunta é simples e profunda:
Esta experiência espiritual aumenta ou diminui a sua capacidade de estar na vida?
1. Processo Integrativo
Aumenta a capacidade de sentir e amar.
Sustenta frustrações.
Assume responsabilidade pelos próprios atos.
2. Mecanismo de Defesa
Diminui o contato com a dor e com os limites.
Afasta-se dos vínculos reais.
Utiliza a linguagem sagrada para evitar o humano.
Conclusão: A Travessia
A verdadeira espiritualidade não exclui a psicanálise; ela a atravessa. Não promete atalhos; convida à travessia. Talvez o maior "despertar" seja este: habitar o próprio corpo sem fugir e sustentar a própria história sem negar.
Isso não é glamour espiritual. É maturidade psíquica. E, muitas vezes, é o trabalho mais difícil — e mais humano — que existe.
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